Foram vários os participantes neste encontro onde se falou de comunicação e política, entre eles, destaque para Pacheco Pereira
Jornadas de Comunicação
A política dos media

Olhar para a relação entre a comunicação social e a política, analisar todo um conjunto de problemáticas inerentes a esta ligação e tentar encontrar algumas respostas para os fenómenos que ocorrem no seio destes dois sistemas foram alguns dos passos dados no passado fim-de-semana. José Pacheco Pereira e Enric Saperas foram os nomes mais sonantes de entre um conjunto vasto de investigadores que se reuniram na UBI.


Por Eduardo Alves


O prazer e a felicidade, o humor e o ócio são características “cada vez mais transmitidas pela comunicação”, diz José Pacheco Pereira. O político, o escritor, o autor do blogue “Abupto” veio até à Universidade da Beira Interior (UBI) tentar responder a alguns dos desafios mais prementes que o fenómeno comunicacional tem colocado. Na óptica de Pacheco Pereira, a escola não devia só ensinar a ler, escrever e contar, mas também “a ver televisão”. Uma tese que este professor do ISCTE diz ser a que mais se coaduna com os dias de hoje.
Este sensacionalismo que impera nos media actuais faz com que o discurso político seja cada vez mais “assassino, mais incendiário”. O verdadeiro debate, a discussão retórica das ideias “fica cada vez mais à margem dos padrões de informação que se registam nos nossos dias”. Pacheco Pereira lembra que “os políticos de hoje já aprenderam a falar em tom de espectacularidade mediática”. Como o público “vota através da televisão”, torna-se quase impossível e é cada vez mais raro, “o político que tome decisões impopulares”. O autor do blogue Abrupto refere que “a democracia é isso mesmo, é a capacidade de tomar decisões que nem sempre agradam”. Neste emaranhado de decisões e acções, onde os líderes políticos são escolhidos “pela sua capacidade mediática de ganhar eleições”, os media são cada vez mais apetecíveis para os políticos.



Democracia torna-se demagogia

Nos dias que correm, os políticos são escolhidos pela sua "habilidade mediática"

Outro dos convidados a participar nestas jornadas de comunicação e política, promovidas pelo Departamento de Comunicação e Artes foi o investigador Enric Saperas. Com um vasto leque de obras publicadas na área da comunicação, este professor espanhol falou no caso do 11 de Março. Actualmente, e depois de alguns acontecimentos produzidos pela classe política, “o povo espanhol desconfia, continuadamente, do discurso mediático”. Segundo este docente, que se encontra a meio de um estudo sobre a credibilização dos telejornais, “toda a gente passou a olhar para as notícias apresentadas pelas cadeias televisivas, como uma espécie de mentira disfarçada”. A mensagem que sai dos televisores, dos rádios, dos jornais, “não é de confiança”.
E se ao contrário de Portugal, onde Pacheco Pereira diz estar a viver-se “uma demagogia”, no país vizinho, “o discurso político, por força dos media, está a mudar”. Esta demagogia, explica o professor do ISCTE, “deriva de uma série de decisões políticas importantes que são tomadas por pessoas que não o Governo, ou uma conjunto de disfarces utilizados pelos políticos, para tentar iludir os eleitores”. A democracia das decisões difícies e impopulares, “deu lugar uma demagogia, onde tudo corre bem e onde não existem dificuldades”, remata Pacheco Pereira.
Saperas explica o fenómeno de relação entre estes dois campos sociais, através do exemplo do aparelho democrático. Este docente espanhol veio até à UBI dizer que “hoje, a maior oposição dos políticos no Governo, são os media”. Os media devem funcionar “como mecanismos de controlo dos políticos”, mas a má utilização destes levou a que sejam mais do que isso.





Novos meios trazem boas perspectivas

Num encontro marcado pela troca de ideia e de teorias, deu-se grande destaque a um novo fenómeno comunicacional. Os blogues, que têm vindo a registar um índice de crescimento assinalável, tiveram direito a uma sessão. João Canavilhas, docente na UBI explica que “a política esteve, desde o primeiro momento, ligada aos blogues”. Segundo este investigador, “os blogues mais conhecidos e que hoje registam maior número de visitas estão relacionados com o humor e com política”. Esta mescla dá um toque muito especial a estas páginas pessoais da Internet, nas quais, Pacheco Pereira diz “estar a renascer uma nova forma de debate”. Para o autor de um dos mais conhecidos espaços cibernáuticos, o blogue “Abrupto”, “este tipo de comunicação representa uma melhoria qualitativa e quantitativa do espaço público”. Nestas páginas pessoais, na sua maioria mantidas sobre a forma de diários, “favorece-se a proclamação de uma opinião”, diz Pacheco Pereira. Esta “forma cronológica de ver o mundo” tem levado a um debate “mais aprofundado e mais equilibrado” das questões políticas. O autor de “Abrupto” mostra-se bastante confiante em relação aos blogues e diz mesmo que estes podem ser os pilares de uma “democracia comunicativa”.



UBI pode ter rede europeia de comunicação

A UBI pode vir a integrar uma rede de Universidades onde se estuda a relação entre política e comunicação

João Carlos Correia foi o docente responsável pela organização deste encontro. Durante um fim-de-semana debateu-se a relação entre a política e a comunicação e foram apontadas algumas das possíveis conclusões de um estudo “que se quer vasto”. O docente da UBI lembra que “em Portugal, verifica-se a ausência de uma área de investigação que especificamente assuma a problemática da comunicação e política”. Este encontro serviu também, “para lançar os primeiros passos no cruzamento desta áreas”. As próximas acções vão no sentido de “promover o intercâmbio entre investigadores portugueses e outros congéneres estrangeiros”. Daí que, a criação de uma rede europeia de estudos de comunicação e política “tenha sido abordada” ao longo do encontro. Uma ideia que os responsáveis da UBI pretendem desenvolver a curto prazo.