Por Eduardo Alves


Durante uma semana, investigadores de todo o mundo falaram sobre a economia e a guerra

A presença de um forte aparato policial junto ao pólo das engenharias denunciava algo fora do comum. Durante uma semana, entre 14 e 18 de Fevereiro, a UBI recebeu a nata académica dos estudiosos de Kondratieff.
Um evento que vinha sendo preparado há cerca de cinco anos. Tessaleno Devezas, docente da UBI é o principal promotor da iniciativa. Devezas refere que “há algum tempo que se pretendia organizar um evento relacionado com o terrorismo, com as guerras e com o impacto que estas acções têm na sociedade e no mundo em geral”. Com a ida de Carvalho Rodrigues, professor e doutor honoris causa da UBI, para um dos centros de investigação da NATO, “essa aspiração ganhou contornos mais sólidos”, acrescenta Tessaleno Devezas.
Depois de algum trabalho por parte dos dois docentes da UBI, “o projecto foi finalmente aprovado pela organização, mas deveria ter lugar na Rússia”. Devezas frisa que desde sempre olhou para a UBI como um lugar fundamental “para se promover um evento a esta escala”. Contudo, os acontecimentos do 11 de Setembro levaram a que a NATO e muitos participantes cancelassem o encontro. Passado todo este tempo “conseguimos trazer até à Covilhã os mais respeitados cientistas e estudiosos dos ciclos de Kondratieff”.




Poder económico e militar

Várias dezenas de apresentações, mais umas tantas teses de investigação e um punhado de discussões levaram os participantes deste encontro a retirar conclusões valiosas para o futuro.
Tessaleno Devezas, enquanto anfitrião explica que “deste encontro poderá sair um novo de estudo sobre os conflitos armados”. Toda a actividade teve como pano de fundo as investigações realizadas no começo do século XX pelo economista russo Nicolai Kondratieff. Há luz das teorias deste economista, as guerras são previsíveis através de ciclos, com uma duração aproximada de 50 anos. Estes ciclos indicam que numa primeira fase existe um acumular de novas invenções e de novas tecnologias. Essas descobertas levam a que a sociedade conheça um forte avanço que vai culminar num conflito armado, representante da pior fase do ciclo. Logo após este, “regista-se um novo período de retoma”.
Ainda assim, “os resultados apresentados neste encontro apontam para novas ideias”. Hoje em dia, os estudiosos destas matérias referem que “cada vez mais o poderio militar está a ser suplantado pelo poder económico”. Ao que parece, “o dinheiro começa mesmo a ter mais importância que as armas”.
Este tipo de teoria foi explicado por Gerhard Mensch, reputado consultor político da Casa Branca. Para Mensch, a actualidade retrata a teoria avançada por Kondratieff, “ainda que de uma forma algo diferente”. Os Estados Unidos da América, como grande potência a nível mundial “começa a ver a sua economia a fraquejar e passa a utilizar o seu poderio militar como principal forma de persuasão”. A China, “o futuro império universal, devido ao crescimento económico galopante, na ordem dos dez por cento”, vai ser o próximo estado a fazer frente à América. Nessa altura, que “não deverá estar a muitas décadas”, Gerhard Mensch diz que “a pior parte do ciclo, o conflito armado, vai voltar”.

Uma guerra diferente

Tessaleno Devesas foi o principal impulsionador do encontro

Num leque de cientistas e investigadores divididos por várias nacionalidades, o austríaco Cesare Marchetti ganhou um forte destaque. No entender deste investigador austríaco, “as guerras estão a mudar de formato”. Os conflitos bélicos com uma elevada taxa de mortes estão a dar lugar às pressões económicas e aos “jogos de bastidores”.
Marchetti fala no fosso que está a ser cavado entre as economias com uma grande evolução, “como é o caso da China” e os povos do dito “terceiro mundo”. A fronteira entre “o mundo ocidental e civilizado e o oriente mais guerreiro tem tendência a ficar mais carregada, devido ao terrorismo”.
Este foi um dos aspectos em grande destaque nestas jornadas. Segundos os intervenientes, os terroristas “apostam cada vez mais em armas pouco tradicionais”. Os químicos, a Internet e outro tipo de utensílios nas mãos de grupos armados “são cada vez mais perigosos”. Durante a semana em que decorreu o encontro foram ainda debatidos os fundamentos da teoria de Kondratieff. Algo que levou Tessaleno Devesas a falar sobre “possíveis avanços perante as primeiras teorias”, operados na UBI.