Carlos Cabrita *

História da Engenharia Electrotécnica - Parte 2 -
Evolução do Electromagnetismo



Retomando esta nossa história resumida, sem dúvida que se poderá afirmar que o nascimento e o desenvolvimento da Engenharia Electrotécnica se encontram intimamente associados à evolução do magnetismo. Como tal, apresentam-se de seguida alguns marcos históricos de referência relativos ao desenvolvimento desta ciência fundamental, que alterou a história da humanidade:
  Descoberta da pedra-íman durante a Idade do Ferro.
  O historiador romano Plínio, o Velho, registou para as gerações vindouras a lenda do pastor Magnes. Um belo dia, nas suas lides pastorícias, ao subir a um monte apoiado num cajado de ponta ferrada e calçando sandálias pregadas, verificou que quer o cajado quer as sandálias eram ambos atraídos pelo solo, mal conseguindo deslocar-se. Todo aquele monte era um jazigo de magnetite. O vocábulo grego “magnetos” teria assim nascido do próprio nome do pastor. Rezam as lendas históricas que este termo teria igualmente tido origem no distrito de Magnésia, na Macedónia, por serem os seus montes também ricos em magnetite.
  Os sábios gregos Tales de Mileto, Platão, Anaxágoras, Empédocles, Epicuro, Leucipo e Demócrito desenvolveram as primeiras teorias associadas à atracção magnética.
  Apesar da existência da bússola vir mencionada em crónicas chinesas datadas do século IV a.C., a invenção deste instrumento de navegação baseado no magnetismo terrestre é atribuída ao navegador napolitano Flávio Gioia, em 1302.
  O vice-rei da Índia D. João de Castro, quando da sua viagem de Lisboa para Goa em 1538, realizou estudos de referência sobre a declinação magnética da Terra.
  O sábio inglês William Gilbert publicou em 1600 um tratado intitulado “De Magnete”, na sequência das suas experiências sobre o magnetismo, tendo surgido pela primeira vez a palavra “Electricidade”.
  Em 1785 o engenheiro francês Charles Augustin Coulomb criou a noção de carga ou massa magnética, e desenvolveu trabalhos sobre a atracção magnética.
  Experiências de André-Marie Ampère, no século XVIII, que é muito justamente considerado o pai da Electricidade Moderna.
  Em 1820 Jean-Baptiste Biot e Félix Savart descobriram o efeito mecânico do campo magnético sobre a corrente eléctrica.
  Em 1824 o físico e matemático francês Simon Denis Poisson apresenta o seu “Mémoire sur la Théorie de Magnétisme”.
  Em 1831 o físico inglês Michael Faraday descobriu a indução electromagnética e formula este fenómeno escrevendo a sua lei geral de indução.
  Em 1873 Maxwell publicou o seu “A Treatise on Electricity and Magnetism”, em dois volumes, onde expõe as leis fundamentais do campo electromagnético. É uma das obras capitais do génio humano.
Sem dúvida que os grandes marcos fundamentais do desenvolvimento da Electricidade e do Magnetismo se devem aos trabalhos de Ampère, Biot, Savart, Faraday e Maxwell. Como muito bem escreveu o Eng. Franklin Guerra na sua obra de referência citada na Parte I desta pequena história, estavam assim desbravados os caminhos para que o Electromagnetismo permitisse a construção da mais majestosa das ciências.
Sem dúvida que esta última constatação foi induzida pelo facto da sociedade actual ser completamente dependente da Electrotecnia. Para que tenhamos um pouco a noção dessa dependência, basta contarmos, por exemplo, a quantidade de motores eléctricos existentes numa habitação, sem os quais a nossa vida, poder-se-á dizer, seria despida de qualidade e conforto: portão colectivo de entrada, portão colectivo das garagens, portões das garagens individuais, bomba de água da piscina, motores de rega do jardim, elevadores, ar condicionado, aquecimento, ventilação, exaustor de fumos da cozinha, exaustores de vapor das casas de banho, micro-ondas, accionamento e bombas de água das máquinas de lavar roupa e loiça, varinha mágica, faca de cortar pão e carne, centrifugadora, moinho e máquina de café, máquina de sumos, picadora de carne, frigorífico, arca congeladora, aspiradores normal e portátil, estores eléctricos, máquina de barbear, máquina de cortar cabelo, máquina de costura, computadores fixo e portátil, impressora, leitores de DVD fixo e portátil, relógios analógicos, máquina fotográfica, câmara de vídeo, ventoínhas e termo-ventiladores.
Contudo, apesar da adjectivação inerente ao motor eléctrico deixar entender, para a maioria dos nossos leitores, que se trata de um equipamento estritamente electrotécnico, na prática a sua concepção, construção e utilização abarcam praticamente todas as áreas de engenharia: metodologias de concepção (electrotecnia e electromecânica), cálculo computacional e optimização (informática), aços magnéticos e cobre dos condutores (mecânica), isolantes e escovas (química), estruturas de apoio (civil). Inclusivé, a engenharia aeronáutica desempenha igualmente um papel fundamental, na escolha e selecção dos accionamentos mais convenientes para os diversos tipos de aeronaves. Por outro lado, a engenharia têxtil e os designers de moda e industriais estão também associados, respectivamente, à concepção e fabricação dos fatos de trabalho especializados a utilizar pelos construtores e operadores, e ao desenho exterior dos motores de forma a torná-los atraentes para os industriais.
Visitem-nos e venham estudar engenharia para a nossa universidade, pois dispomos de todas aquelas valências, suportadas por um ensino e investigação de qualidade e laboratórios de excelência. Além disso, temos a melhor qualidade de vida para estudar e investigar e encontramo-nos, graças às novas vias de comunicação, tão próximos do mundo...

* Engenheiro Electrotécnico e Professor Catedrático de Electrotecnia da UBI