Voltar à Página da edicao n. 383 de 2007-06-05
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Encontro de escritoras

Hélia Correia, Julieta Monginho e Maria Manuel Viana foram as escritoras convidadas para participar num Encontro de Escritores Portugueses na UBI. Durante a conferência as escritoras falaram do seu trabalho, dos seus livros, e esclareceram algumas dúvidas aos discentes e alunos ali presentes.

> Susana Duarte

O edifício da Real Fábrica Veiga do Museu de Lanifícios da UBI recebeu na passada sexta-feira, dia 1, a presença de três escritoras, para participarem num encontro de escritores portugueses. Esta iniciativa foi organizada pelos alunos do Departamento de Letras e pelo Núcleo de Estudantes de Letras – LiteratUBI, e pretendeu que os alunos tivessem o contacto com os escritores, e que ao ler um livro «associem as caras a quem escreveu». “Mais importante que ler as obras é poder ter o contacto com os autores”, referiu o aluno Pedro Simões. O estudante considera que as Letras estão um bocado negligenciadas, na sua opinião «as pessoas tendem mais para ligarem a televisão». Pedro Simões concorda que os meios de comunicação são também muito importantes para a formação do indivíduo, todavia entende que a profundidade do ser humano reside mais em outras formas de expressão: “As Letras, assim como todas as artes, são uma expressão mais profunda da alma da humanidade”, afirmou.
“O texto literário é um texto por excelência de trabalho para o linguista, porque aí vivifica-se o trabalho máximo com a própria língua, enquanto objecto multifacetado”, declarou o professor do Departamento de Letras da UBI, Paulo Osório. O docente confirma a importância de haver contacto com quem escreve as obras, mas não menos importante é também o contacto com a obra, a partilha com o mundo interior dos próprios escritores, das personagens que eles criam com o universo complexo, manipulação da língua que muitas vezes não nos permite chegar lá, acrescentou.
“Escrevo para não ter medo, mas não é possível escrever o medo, podemos escrever sobre o medo, mas não escrever o medo”, referiu a escritora Maria Manuela Viana. A escritora explicou que um escritor não pensa palavras, o escritor pensa frases. Maria Viana entende que o escritor é aquele que torna o texto mais matéria, “o texto é um objecto de prazer para quem escreve e simultaneamente é um objecto de prazer para aquele que o lê”, declarou. A escritora acrescentou ainda que «não só é importante ler os livros, como também é importante conhecer os escritores, há um corpo, há um texto, há o corpo do livro, há o corpo do texto», salientou. “Nunca mais na minha vida escrevo um livro na primeira pessoa”, disse, pois assume que escrever na primeira pessoa é um erro de principiante, porque toda a gente se convence que é uma autobiografia e que aconteceu mesmo, que aquelas cenas são reais, e vão tentar descobrir quem são aquelas pessoas, se fizeram aquilo.
“Escrever para mim é uma forma de apreender, circunscrever e de organizar a vida que há em cada uma das vidas”, referiu a escritora Julieta Monginho. Para a especialista, basta olhar para uma pessoa e logo lhe apetece escrever aquilo que imagina ser a vida dessa pessoa, acrescentando que a sua vontade era «escrever sobre a vida de toda a gente do mundo, todavia isso só se pode fazer a partir da imaginação». “A escrita é um instrumento, que podia ser como o pincel numa pintura”, comparou.
Julieta Monginho assegurou que a palavra enquanto instrumento é traiçoeira e perversa, porque apesar de parecer simples, no fundo de todas as artes é aquela que nós pensamos que aprendemos logo antes de aprender música ou pintar, por isso pode parecer mais simples, mas o desafio é maior, «é o mais difícil de produzir, esse efeito de transfigurar a realidade e tornar outro real para os nossos textos e livros», explicou.
“Não falo dos meus livros, nem faço a mínima ideia como se escrevem”, disse a escritora Hélia Correia. A escritora revelou que uma das poucas tarefas que assumiu na vida foi a de «convencer os meus amiguinhos pequenos de que tenho um trato particular com as fadas e que lhes levo recados», e faz questão de manter esta corrente com as crianças. Segundo Hélia Correia a disciplina universitária mais confusa é a de escrita criativa. A escritora revela que nunca percebeu como é que se pode explicar alguém como escrever criativamente, explicar quais são os mecanismos, as técnicas. Ao contrário das outras escritoras, Hélia Correia considera que «o livro é um livro, é um todo, um absoluto e não precisa do corpo do escritor para coisa nenhuma» assegurou. “Não há obras nem autores, há obras individuais, cada livro é uma personagem absoluta”. Para a autora os autores e os textos tocam-se e largam-se, concluindo que muitas vezes os autores morrem e os textos continuam vivos e às vezes acontece o contrário.


Data de publicação: 2007-06-05 00:05:00
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