"As pessoas apreciam a maneira como conseguimos criar músicas tão diferentes com poucos instrumentos"
Entrevista aos Madredeus
"Canto palavras destituídas de disparate"

Embaixadores da música portuguesa em todo o mundo, os Madredeus tocaram pela terceira vez na Covilhã. Em entrevista ao Urbi@Orbi, Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães falaram sobre o entusiasmo que continuam a sentir quando fazem canções que versam a saudade, as ambições e os sonhos.


Por Ana Rodrigues e Sandra Carvalho


Urbi @ Orbi - Como é que caracterizam a música dos Madredeus?
Pedro Ayres Magalhães (PAM) -
Costumo caracterizá-la como sendo uma fantasia musical de raiz portuguesa.
Teresa Salgueiro (TS) - É uma música original, cantada em português e que existe para cantar a língua portuguesa. Acho que ao longo dos anos é visível a capacidade de reinventar este estilo usando mais ou menos os mesmos elementos e seguindo sempre a mesma linha de pensamento.

U@O- A cantar em português como é que conseguem ter tanta aceitação no estrangeiro?
PAM-
A certa altura o nosso projecto ficou conhecido justamente por ser algo desconhecido. É com a música que conseguimos conquistar o público. Mas no Japão, por exemplo, os concertos são traduzidos em simultâneo.
TS- Também acho que as pessoas apreciam a maneira como conseguimos criar músicas tão diferentes com poucos instrumentos. Somos um grupo com muitos recursos em termos de criatividade.

U@O- Gravar em inglês está nos vossos planos?
PAM-
Não. O grupo foi feito e inventado para criar na esfera da canção em português.

U@O- Qual é o tipo de público que assiste aos espectáculos dos Madredeus?
PAM-
São várias gerações. Tanto pessoas que são fiéis aos Madredeus como as que vêm assistir pela primeira vez. As plateias são diferentes de país para país, mas não fazemos generalizações.

U@O- Os vossos espectáculos não se adequam a qualquer espaço.
PAM-
O que nós exigimos para os nossos espectáculos é uma plateia sentada e uma atmosfera tranquila. Jardins, monumentos ou teatros são os locais onde propomos os concertos.

U@O- Porque não actuam mais vezes em Portugal?
TS-
Mais quantas? Todos os anos fazemos uma tournée em Portugal.
PAM-
Os concertos que damos em Portugal são suficientes, para não cansar as pessoas. Sempre que os Madredeus querem actuar têm que tomar a iniciativa, somos nós quem tem de organizar os espectáculos.

U@O- Qual foi o impacto do álbum "Electrónico"?
PAM-
Foi uma experiência musical muito bem sucedida e lançado em todos os países onde se editam os discos dos Madredeus. Foram 13 músicos diferentes que se relacionaram com a música portuguesa e conseguiram um tipo de música contemporânea.

U@O- Como foi a experiência de gravar com uma orquestra no "Euforia"?
PAM-
Boa. Foi uma aventura única. Correspondeu a uma tournée que fizemos com aquela orquestra. Actuámos nos coliseus de Lisboa e Porto, em Salamanca, Paris e Bruxelas. É um figurino atípico dos Madredeus.

U@O- O que é que pretendem transmitir com a digressão Movimento?
PAM-
São as confissões não biográficas da Teresa. É uma dramatização das confissões da cantora dos Madredeus. As canções são escritas por nós e versam, de uma forma fantasiosa, o que pode sentir uma cantora e aquilo que ela pode contar ao público. As canções versam a saudade, as ambições, os sonhos.


"O entusiasmo e a entrega têm que ser absolutos"


U@O- Sente que o grupo evoluiu ao longo da carreira?
TS-
Não é uma questão de sentir, é uma evidência. Acho que evoluímos em todos os sentidos. O grande sinal dessa evolução e da sua vitalidade é a criação de história, a forma contínua como o grupo se mantém agregado e continua a reproduzir um repertório original cantado em português.

U@O- Tem cuidados especiais com a voz?
TS-
Tenho os cuidados de saúde que acho que toda a gente deve ter. Se calhar tenho mais cuidado em não me constipar. Apesar de gostar de fumar evito fazê-lo, assim como evito beber e fazer noitadas, sobretudo quando há concertos. A vida de um cantor é bastante disciplinada.

U@O- Dezasseis anos depois continuam a sentir o mesmo entusiasmo e motivação?
TS-
Sentimos cada vez mais. O entusiasmo perante a música, que é uma coisa que nasce do silêncio, temos que o construir ao longo do tempo. O entusiasmo e a entrega têm que ser absolutos. É evidente que há dias e dias, mas isso é um desafio em si.

U@O- O facto de passarem muito tempo juntos cria momentos de tensão?
TS-
Não, porque as pessoas são bem educadas. É evidente que há diferenças, sobretudo de personalidade, mas essas não vão para cima da mesa. As pessoas respeitam-se e têm apreço umas pelas outras. E as diferenças do modo como se encara a vida, e mesmo o próprio trabalho, são discutidas. É evidente que há momentos mais difíceis, porque para conseguir ser um grupo, junto há tantos anos, é preciso mesmo muita vontade, mas mais que vontade é a criatividade que dá vitalidade ao grupo.

U@O- Como concilia as ausências prolongadas com a vida familiar?
TS-
Concilio como sei. Essas coisas não vêm numa cartilha, e por isso nós vamos construindo as coisas com a nossa iniciativa e vontade. Somos músicos a tempo inteiro. Não há uma cartilha para a vida profissional mas também não há para a vida pessoal, muito menos quando não se tem uma vida vulgar. Enfim, a vida é uma aprendizagem que exige muito de todos os intervenientes da família, mas acho que isso também é bom. De certa maneira pode ser difícil, mas são os desafios do amor. E é sempre interessante sermos confrontados com isso.

U@O- Há alguma música do vosso repertório pela qual tenha um carinho especial?
TS-
São tantas! O nosso repertório é muito vasto. Todas as músicas me tocam profundamente, senão não as conseguia cantar. Claro que as letras me dizem muito. Também só consigo fazer tantos concertos porque ao cantar estou a dizer palavras completamente destituídas de disparate. São palavras que fazem todo o sentido, embora não reflictam a minha experiência pessoal, porque estou a encarnar uma personagem, sou uma voz que representa a voz dos músicos que estão ali comigo. É uma ideia que não nasceu da minha cabeça mas com a qual me identifico.




"Defendo a música portuguesa todos os dias"


U@O- Lembra-se da primeira vez que veio à Covilhã?
TS-
Lembro-me perfeitamente e ainda hoje falei nisso. Foi numa igreja. (n.r. Capela de Serviços Sociais, durante a Semana Académica) Eu não me lembrava de ter vindo aqui a um teatro, onde actuámos pela segunda vez, só me lembrava dessa igreja. Foi um dos nossos primeiros concertos, em 89.

U@O- Como é que vê este regresso à Covilhã?
TS-
Adorei. Gostei imenso de estar aqui. Lembro-me sempre do público muito entusiasmado nos concertos que aqui fizemos. É sempre bom voltar à Covilhã. Aliás, eu gosto imenso de cantar em Portugal, porque é uma experiência muito diferente de cantar no resto do mundo, onde não percebem aquilo que estou a dizer. É diferente não só porque percebem o que eu digo mas porque é a minha terra. E eu gosto muito do meu País.

U@O- Já foi apontada como herdeira da Amália. Como é que se vê nesse papel?
TS-
Apontam-me a mim como a cada cantora nova que aparece. Isso só confirma a grandeza da Amália. Ela deixou-nos um legado enorme. Se eu sou herdeira somos todos herdeiros da Amália. Herdámos todos o que ela deixou. A Amália para mim é uma figura de grande inspiração. Ela é um mito. Eu só tenho esta idade e espero ter saúde para cantar muitos mais anos. Mas admiro-a imenso e a acho que de certa maneira a nossa música lhe é dedicada.

U@O- Gravou recentemente com o Sérgio Godinho o "Pode alguém ser quem não é?". Como é que surgiu a parceria?
TS-
Partiu de um convite dele. Nunca privámos muito, mas a minha relação musical com ele é de uma pessoa de referência. Lembro-me de, em miúda, ouvir na rádio as músicas dele. É um caso extraordinário de longevidade como compositor e intérprete e com um talento muito particular para cantar as palavras portuguesas. Por isso fiquei contente com o convite e acho que me adaptei bem à canção.

U@O- Nos últimos tempos tem-se falado mais que nunca na defesa da música nacional e muito se tem reivindicado o cumprimento dos 40 por cento de quota. O que acha desta situação?
TS-
Eu defendo a música portuguesa todos os dias. Acho que a música portuguesa está defendida, tem imensos compositores e autores de qualidade, e isso é a melhor forma de defender a música portuguesa.

U@O- Mas têm uma explicação para o facto de a maioria das principais rádios portuguesas continuarem a ignorar a música portuguesa?
TS-
Não tenho uma explicação para isso. Acho que é uma questão de gosto, de cultura. Não são só as rádios que ignoram. Gostaria que as coisas fossem diferentes.
PAM- Mas não é só isso, o ideal era que se fizesse uma música que toda a gente gostasse. Esta crise sempre existiu, porque sempre foi difícil as rádios passarem música portuguesa.

U@O- Parece-lhes que a "Associação Venham Mais 5" vai conseguir resultados práticos?
PAM-
Espero que sim, mas não confio muito numa visão de sociedade em que aparece o estado como que a determinar o que é que as pessoas devem fazer.
TS- Eu não conheço a associação, ninguém me falou sobre o assunto. Mas espero que sim, se isso for uma batalha válida.

U@O- Para uma banda que já é conhecida mundialmente o que é que vos falta concretizar?
PAM-
A actividade dos Madredeus depende da nossa iniciativa. O nosso sonho é que possamos continuar a tomar a iniciativa, continuar a tocar e fazer uma nova tournée que dure dois ou três anos como esta do "Movimento".







Som contemporâneo de raiz tradicional portuguesa


Os Madredeus contam já com dez álbuns gravados e mais de três milhões de discos vendidos em todo o mundo



Em 1985 Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão idealizaram fazer "um outro tipo de música". Pouco depois juntaram-se-lhes Gabriel Gomes, Teresa Salgueiro e Francisco Ribeiro. Assim surgiu a formação inicial dos Madredeus.
Entretanto o grupo foi percorrendo um caminho repleto de sucessos com um som contemporâneo de raiz tradicional portuguesa. Sempre com o intuito de fazer propaganda à guitarra clássica, os Madredeus procuram agarrar o público com músicas sedutoras e letras "num português musical".
Actualmente, Pedro Ayres Magalhães, Teresa Salgueiro, José Peixoto, Carlos Maria Trindade e Fernando Júdice, são o rosto de um grupo que se conseguiu projectar além fronteiras.
"Os Dias da Madredeus" (87); "Existir" (90); "Lisboa" (91/92); "Espírito da Paz" (94); "Ainda" (95); "Paraíso"(97); "Antologia" (00); "Movimento" (01); "Electrónico" (02); "Euforia" (02) são os trabalhos editados pelo quinteto.
Com dez álbuns gravados e mais de três milhões de discos vendidos nos quatro cantos do mundo, o desejo dos Madredeus passa por continuar a tocar, como têm feito até agora, músicas com palavras "destituídas de disparate".