João Alves
NC / Urbi et Orbi


A quarta edição do festival animou a vila

O calor era muito. As pingas de suor caíam em bica pela testa abaixo. O ambiente, na pequena sala da Cooperativa, era quente. Os visitantes não resistiam mais de dez minutos a estar no local. Porém, nada fazia arredar os cerca de 200 artesãos que, no passado domingo, 3, recriaram em Gonçalo, distrito da Guarda (mas a cerca de 10 quilómetros de Belmonte), uma "Grande oficina de cesteiros" na antiga Cooperativa da vila. A iniciativa inseriu-se no IV Festival de Cultura Popular de Gonçalo, organizado pelo grupo de música popular "Os Sarrafos", em colaboração com a Câmara da Guarda. O NC, num pequeno roteiro de fim-de-semana, teve oportunidade de ver obras inéditas realizadas por mãos que há muitos anos se habituaram a vergar o vime.
A festa teve início na sexta-feira, 1. Porém, a mesma acabaria por ser ensombrada pelos incêndios que assolam a região e que em Gonçalo acabaram mesmo por fazer arder umas palheiras e puseram em perigo algumas habitações. Mas nem o fogo conseguiu estragar a festa. E esta prosseguiu no sábado, 2, ao longo de todo o dia, com a música a invadir as ruas da vila. E no domingo, 3, para além das melodias populares, também foi possível admirar ao longo das ruas vários trabalhos realizados pelos cesteiros locais, tudo em vime, alguns bem originais. Como é o caso de uma casa em verga feita por Fernando Nelas, um artesão local, que recriou a sua própria casa, num trabalho que levou horas e horas de sacrifício. E nesta miniatura, nem a luz faltou.
Recorde-se que o objectivo da Junta de Freguesia de Gonçalo era entrar no livro dos recordes, o "Guiness Book", com o recorde de maior número de produtos de cestaria elaborados. Se foi conseguido ou não, ainda não se sabe. Mas, segundo o presidente da Junta, Pedro Pires, algo foi alcançado: o facto de reunir o povo e chamar a atenção para a arte da cestaria. É certo que a autarquia esperava cerca de 300 produtores. Só que, os incêndios impediram isso, pois muitos dos artesãos locais também são bombeiros e, na hora da aflição, não puderam virar as costas à prioridade que era apagar fogos. No entanto, na próxima semana, a Junta irá mesmo apresentar a candidatura ao recorde, sob a forma de um documentário redigido em inglês e que deriva da recolha de imagens em vídeo e fotografia.

Recuperar Cooperativa é objectivo

Para além da ambicionada entrada nos livros dos recordes, o objectivo da festa foi outro: arranjar verbas para a aquisição do edifício da antiga cooperativa. Outrora, este era o local predilecto de manufacturação de cestos. Porém, a crise que afectou este sector levou ao fecho da infra-estrutura e apenas alguns resistiram até hoje, nesta arte. Hoje, o panorama é diferente e o objectivo da Junta é revitalizar a arte do vime e voltar a dar ao povo uma casa que sempre foi sua. Assim, o lucro obtido com a venda de diversas peças produzidas na "Grande oficina de cesteiros" reverterá para a primeira prestação na aquisição da Cooperativa. Para além disso, ao longo da vila, são visivéis alguns cartazes e placas a intitular Gonçalo como a Capital Europeia da Cestaria. Um desejo da freguesia que irá convidar os eurodeputados portugueses a visitar o local e a posteriormente apresentarem uma candidatura para esse efeito.