Esta peça é constituída por um dos dois textos que integram o denominado Projecto Koltés
Fábulas em cena
Um estrangeiro de noite na floresta

Um “estrangeiro” mergulha na sua solidão e fala compulsivamente. “A noite mesmo antes das florestas” foi mais um espectáculo integrado no Festival Y.


Por Susana Luz


Integrada no Festival Y, a sessão Y Outras Formas, constituída por cinco espectáculos iniciou-se no passado dia 2 de Novembro no Teatro-Cine, com a peça de teatro “A noite mesmo antes das florestas”.
Levada ao palco pela companhia Trimagisto, esta peça foi inspirada num dos dois textos correspondentes ao longo monólogo publicado em 1997 pelo dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès, cujo título se manteve igual. A criação é de Jorge Parente e Nuno Coelho, este último também o intérprete.
A peça começa sem se dar conta: um homem entra, dispõe partituras e algumas garrafas de água pelo chão e senta-se ao fundo a observar; entra outro homem, encasacado, de gorro e de mochila às costas, pousa a mochila, tira de lá os seus papéis, tenta organizá-los e dispô-los nas diferentes partituras, começa a tentar seguir um papel enquanto coloca outros no chão e começa então a falar, para se calar só 75 minutos depois. Fala para quem o quer ouvir, fala do mundo para o mundo, pois diferencia-se deste. Ele é um “estrangeiro”. Conta-nos histórias suas que tocam em temas como o racismo, a xenofobia, o amor, a solidão, o selvagem, enquanto esbarra em imagens, lugares, pessoas esquecidas e pálidas sensações que emergem das profundezas de sua memória, crivadas de angústia e de revolta.
A plateia era reduzida, de cerca de trinta pessoas, mas interessada. De qualquer forma, essa mesma plateia não poderia ser muito maior, pois tudo ocorreu em cima do palco: o público estava sentado em cadeiras mesmo ao nível do actor, sendo o cenário o próprio backstage de cortinas fechadas para o exterior, ao qual acrescentaram um piano e um andaime.
No final da peça ficou a sensação de faltarem as outras formas, pois esta reduziu-se a uma única técnica, o teatro, embora que experimental. O espectáculo não surpreendeu, mas não deixou de embalar o público pela sua característica de fábula.